Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
Me ligaram dizendo que eu não tinha mais alma. Bateram o telefone na minha cara. Não houve grosseria, a voz era estável, perene, mas não era gravação nem tinha entonação de telemarketing; foi alguém que me ligou, a coisa só não era pessoal.
A frase parecia que ia durar pra sempre: “você foi devidamente desalmado”. Tu tu tu tu. Realmente, muito “devido”. Levaram meus gostos embora, foi minha primeira interpretação. Bem que achei que tinha tomado “insípido” no café-da-manhã… um elixir de sensaçao-que-não-fica. E como me disseram que era tudo ligado - boca, nariz, ouvido -, também devo ter ouvido um shhhh e cafungado o chão. Não, eu fui desalmado.
Me ligaram. Durou 3 segundos. E agora eu sinto um Não.
Me ligaram.
sinto Não.
Durou 3 segundos.
Não.
Não é fácil compreender o sangue alheio; odeio todos os que lêem por desfastio.
Aquele que conhece o leitor nada mais faz pelo leitor.


