de-vir-ando

Um exercício de devir, um convite ao vir-a-ser.

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Mulheres Invisíveis (3)

Carolina tem lábios do fogo que lambe prédios no centro de Bangkok. Abre o mundo numa clareira sem pelos pubianos. Assina em negrito e fala guardando a língua para as paisagens que ainda vai engolir. Carolina só para de gemer em caso de fissão nuclear.

Marie aluga fragmentos do início da vida por carinhos nos pés. Atende o telefone cantando, dança sem música e goza gritando pra dentro. Sabe o quer dessa vida e sabe o que eu quero também. Anteontem, fez passos de tango com o morro da Urca.

Summer tem fios de nylon invisíveis ligados ao meu peito que ela controla de olhos fechados. Foi concebida em tons de rosa e tintas bizantinas, mas veio ao mundo por um quadro de Degas. Movimenta-se como aquarela no algodão e nunca está em preto-e-branco. Summer nunca foi uma promessa.

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Me ligaram dizendo que eu não tinha mais alma. Bateram o telefone na minha cara. Não houve grosseria, a voz era estável, perene, mas não era gravação nem tinha entonação de telemarketing; foi alguém que me ligou, a coisa só não era pessoal.

A frase parecia que ia durar pra sempre: “você foi devidamente desalmado”. Tu tu tu tu. Realmente, muito “devido”. Levaram meus gostos embora, foi minha primeira interpretação. Bem que achei que tinha tomado “insípido” no café-da-manhã… um elixir de sensaçao-que-não-fica. E como me disseram que era tudo ligado - boca, nariz, ouvido -, também devo ter ouvido um shhhh e cafungado o chão. Não, eu fui desalmado.

Me ligaram. Durou 3 segundos. E agora eu sinto um Não.

Me ligaram.

sinto Não.

Durou 3 segundos.

Não.

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Mas esta bem-aventurada certeza eu achei em todas as coisas: que é ainda com os pés do acaso que elas preferem dançar.
— Friedrich Nietzsche contra a “escravidão à finalidade” em “Antes que o sol desponte”, texto que está no livro III de Assim Falou Zaratustra. Tá difícil não sublinhar as linhas desse alemão-dinamite.
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De tudo que se escreve, aprecio somente o que alguém escreve com seu próprio sangue. Escreve com sangue; e aprenderás que o sangue é espírito.
Não é fácil compreender o sangue alheio; odeio todos os que lêem por desfastio.
Aquele que conhece o leitor nada mais faz pelo leitor.
— É, rapaz, Assim Falou Zaratustra, ou Friedrich Nietzsche. Chame do que quiser, só não diga que não foi escrito com o próprio sangue.
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Envolvido em filosofia que liberta e que sonha (de um alemão e de um francês), acabei escutando um violino, tocando aqui não muito longe. Moro de frente numa rua do centro do Rio. De que caralhos veio um violino? O tarja preta que tenho tomado pra terminar com um carma acadêmico não era pra causar alucinações. Mas talvez o Zaratustra sim.

Agora voltou o samba/pagode/qualquerbatuque que ronda essas vizinhanças, vem de brinde. Visite a Lapa e ganhe um batuque tiracolo.

Será quem mataram o violinista a pandeiradas?